quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O Livro da Bruxa - 2ª Capítulo

    • Se você perdeu algum capítulo, no rodapé desse artigo, você encontrará os links para acessá-los.


Apesar dos percalços, gosto muito da minha profissão. Certa vez um professor comentou que o médico sempre pode fazer algo pelo paciente, mesmo que seja apenas consolá-lo. Nunca me esqueci deste conselho.
O dia foi bastante atribulado, como é normal na vida médica. Atendi muitas pessoas com os mais diferentes tipos de problemas e tentei ajudá-las da melhor maneira possível. No final da tarde, subi para fazer a visita rotineira aos pacientes internados.
No hospital, temos um protocolo de duas visitas diárias às enfermarias, uma pela manhã e outra no final da tarde. Deste modo, é possível ajustar as medicações e acompanhar melhor a evolução dos pacientes.
Outro aspecto positivo deste procedimento é que o paciente é sempre cuidado por dois médicos. Isso diminui a chance de se instituir um tratamento incorreto e permite que os casos sejam discutidos entre dois profissionais igualmente informados sobre as condições dos pacientes.
Pela manhã, a agitação nas enfermarias é sempre intensa. A equipe de enfermagem administra a medicação matinal e auxilia os pacientes no banho. Ao mesmo tempo é distribuído o desjejum, e os médicos passam
pelos quartos. Muitos colegas gostam da agitação desse horário. Não é o meu caso. Prefiro fazer a visita da tarde, quando as enfermarias estão mais calmas e posso trabalhar com tranqüilidade.
Deixei para visitar minha nova paciente por último. Tínhamos uma conversa para terminar, e isso seguramente levaria algum tempo extra.
Quando cheguei ao seu quarto, ela estava terminando de comer um pote de gelatina.
- Boa tarde, lembra-se de mim? - cumprimentei-a alegremente.
- Boa tarde! Como poderia esquecê-lo. Sou sua leitora assídua - respondeu.
Desde a véspera, eu ficara impressionado com sua lucidez. Aos 86 anos é comum existir algum grau de senilidade nas pessoas. A memória torna-se comprometida, e o convívio social fica bastante prejudicado. É
uma situação muito triste e injusta. Contudo, senilidade não era o caso daquela paciente. Sua mente e seu corpo pareciam ignorar a idade avançada.
Desde o dia anterior, não havia registro de febre ou outra intercorrência em seu prontuário médico, e ela demonstrava a disposição de uma jovem de 20 anos.
Examinei-a novamente e não encontrei nenhum sinal da pneumonia.
Era como se ela nunca tivesse estado doente.
- A senhora está muito bem de saúde. Se não fosse pelo seu nome nas radiografias, poderia jurar que a pessoa com pneumonia era outra - comentei.
- Eu disse que a doença era apenas um pretexto para encontrá-lo.
Agora, já desliguei-a - ironizou.
- Não era preciso contrair uma pneumonia para falar comigo, bastava me telefonar - provoquei.
- Pelo telefone não teria o mesmo impacto, e eu não receberia a mesma atenção.
- Tem razão - admiti.
Anotei algumas informações em seu prontuário antes de continuar.
- Aliás, desde ontem estou curioso sobre meu novo trabalho. Quando terei mais informações? - perguntei, retomando nossa conversa da tarde anterior.
Ela adotou uma atitude maternal.
- De fato, não é um trabalho. É mais como um caminho a ser percorrido.
Fez uma pausa, como se estivesse organizando as idéias.
- Estamos vivendo numa época muito conturbada, e as pessoas estão perdendo a capacidade de se maravilhar com o mundo. Na verdade, todos nós podemos fazer com que nossa passagem por este planeta seja extraordinária, mas muitos não sabem disso e estão desperdiçando suas vidas, o bem mais precioso que possuímos - disse.
Acomodou-se melhor na cama e apanhou a colher de plástico que repousava no pote vazio de gelatina. Lembrei-me de uma antiga professora de matemática que sempre pegava um pedaço de giz quando ia explicar alguma coisa importante.
- Como comentei ontem, ao ler seus artigos tive minha atenção despertada... e durante algum tempo apenas acompanhei seu trabalho. Quando você publicou o artigo comparando a vida à escola de pintura, julguei ser o momento propício para auxiliá-lo.
Olhou-me direto nos olhos.
- Responda-me com sinceridade, você realmente pratica aquilo que escreve ou só coloca as palavras no papel? - perguntou.
Fiquei surpreso com esta abordagem tão pessoal e inesperada.
- Eu acredito nas coisas que escrevo - comecei me defendendo. - No entanto, acho meio complicado pôr em prática muitas delas - confessei.
- Pois é este o caminho que vim ajudá-lo a percorrer. Você descobriu um mapa no qual estão descritos lugares maravilhosos. Mas não basta pendurá-lo na parede e escrever artigos sobre ele, como vem fazendo. É preciso arrumar a mochila e visitar estes lugares, percorrer todas as estradas e trilhas. Caso contrário, sua vida não será vivida do modo extraordinário...
Você tem todos os pincéis, tintas e uma enorme tela à sua disposição. Não pinte um quadro tímido e limitado. Este desperdício é o maior e também o único pecado que poderá cometer - sentenciou.

No hospital, nós, os médicos, somos as autoridades máximas. Sabemos sobre doenças, tratamentos, procedimentos e prognósticos. Os pacientes são pessoas que confiam em nosso conhecimento e se submetem às nossas orientações. Entretanto, ela invertera completamente essa condição.
Eu passei a ser seu paciente.
Apesar disto, não lutei para reconquistar minha posição. Decidi deixar as coisas correrem para ver qual seria o resultado. Na sua presença, sentia-me como se tivesse sete anos e fosse meu primeiro dia na escola.
- Ah, professora... Posso chamá-la de professora, não é? Afinal, acho que a partir de agora sou seu novo aluno - disse, tentando conquistá-la.
- Podemos mostrar e até mesmo ajudar, mas acreditar que é possível ensinar algo para outra pessoa é uma grande ilusão. Ninguém é capaz de ensinar outra pessoa. Cada um de nós é o seu próprio professor - declarou solene.
- Mesmo assim vou considerá-la como professora - insisti, testando sua paciência.
- Como quiser. Se você acha conveniente, não me oporei - respondeu.
Decidi provocá-la um pouco mais.
- Dou aulas há quase vinte anos e agora você me diz que não é possível ensinar. Estou em crise.
- Não se preocupe, logo você irá superá-la - ironizou e deu uma piscadela travessa.
Nesse instante, uma jovem entrou no quarto. Não a reconheci, mas vi em seu crachá que era do setor de nutrição.
- Olá, doutor! Olá, vovozinha. Tudo bem? - disse, dirigindo-se alegremente a cada um de nós. - Desculpem-me interrompê-los.
- Não se preocupe, você não está interrompendo - respondi. - Estávamos apenas trocando idéias. Na verdade, eu já estava de saída. Preciso encontrar um colega no pronto-socorro antes de ir para casa.
Despedi-me de ambas dizendo que voltaria na tarde seguinte e deixei a jovem nutricionista fazendo seu trabalho.
Já tive contato com dezenas de pessoas idosas e admirava a forma como algumas envelheciam com dignidade. Infelizmente, muitas vezes não percebemos os verdadeiros tesouros disponíveis no contato com as pessoas mais experientes.
Claro que isso não é uma regra geral. Também existem idosos rabugentos e desagradáveis. Certa vez tratei de um velhinho especialista em reclamar e ofender. Ficou internado durante duas semanas e deixou toda a
equipe com os nervos à flor da pele. Fizemos uma festa com bolo e refrigerantes logo após sua alta. Quando ele saiu, todos respiraram aliviados, principalmente eu, pois durante todo o tempo da internação temi que alguém iria atirá-lo pela janela da enfermaria.
Minha atual paciente era a prova da sabedoria da natureza. Para cada ser humano desagradável existe outro excepcional.

Sua autoridade serena e sua lucidez me fascinavam. Como seria maravilhoso se todos pudéssemos envelhecer como ela.
  • Links para o Capítulo anterior:
1º Capítulo
2ª Capitulo - Novidades

4 comentários:

Tais Maria disse...

Bom dia Luciana, li o segundo capitulo e estou adorando, anciosa já pelo terceiro. Sinto que este livro vai me fazer refletir sobre muitas coisas. Obrigada por compartilhar esta leitura. Um grande abraço, muita paz e luz no teu caminho.

Rosana disse...

Perfeito, estou amando o livro!!!

Luciana Vieira disse...

Tais e Rosana, um beijo para vocês!

solange alves baros ortega disse...
Este comentário foi removido pelo autor.